Sindicato da Sorocabana aponta prioridades para os próximos
quatro anos, da retomada do transporte de passageiros à modernização da malha
de cargas
O planejamento ferroviário está entre os desafios do Governo
de São Paulo para os próximos quatro anos. No interior, projetos de transporte
de passageiros, estudos para recuperação de trechos e mudanças nas concessões
de cargas colocam os trilhos no centro das discussões sobre mobilidade,
logística e desenvolvimento regional. Para o Sindicato dos Trabalhadores em
Empresas Ferroviárias da Zona Sorocabana, a agenda exige investimentos
consistentes e definição de prioridades para o aproveitamento da infraestrutura
existente.
Nos últimos anos, cidades do interior voltaram a avaliar
alternativas ferroviárias para passageiros. Bauru contratou estudo de
viabilidade para implantação de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) utilizando
parte da malha existente. Em Presidente Prudente, a Prefeitura e a Infra S.A.
discutem o aproveitamento do ativo ferroviário e a possibilidade de implantação
do modal. Ribeirão Preto também manifestou interesse em estudar um VLT e pediu
à CPTM avaliação para utilizar ramais desativados.
“Cada cidade tem uma realidade diferente, e isso precisa ser
considerado antes de qualquer projeto. Não adianta recuperar um trecho ou
implantar VLT sem estudar a demanda, a localização das estações e a integração
com outras opções de transporte. O planejamento precisa considerar como aquele
trem será usado pela população”, afirma José Claudinei Messias, presidente do
Sindicato da Sorocabana.
A experiência de Campinas ilustra esse desafio. O primeiro
VLT da cidade circulou entre 1990 e 1995, em um trecho de 7,9 quilômetros e
oito estações. Embora a previsão fosse atender 20 mil passageiros por dia, a
demanda não passou de 4 mil. Entre os problemas apontados estavam a localização
das estações em áreas de baixa densidade e a falta de integração com os ônibus.
Atualmente, um novo projeto de VLT Campinas-Sumaré está em estruturação, com
dois ramais que somam mais de 44 quilômetros.
A expansão do transporte regional também integra a agenda
paulista. O TIC Eixo Norte reúne o Trem Intercidades entre São Paulo e
Campinas, o Trem Intermetropolitano entre Jundiaí e Campinas e a modernização
da Linha 7-Rubi. O projeto prevê 101 quilômetros entre São Paulo e Campinas,
com tempo estimado de viagem de 64 minutos. As obras já começaram no trecho
entre Jundiaí e Campinas.
A movimentação de cargas também exige atenção. Um dos temas
em discussão é a nova concessão da Malha Sul, atualmente operada pela Rumo,
cujo contrato tem término previsto para fevereiro de 2027. A proposta em estudo
prevê 30 anos de concessão e uma malha de aproximadamente 4.250 quilômetros,
com trechos que conectam São Paulo aos estados do Sul do país.
“Quando falamos em ferrovias no interior, também estamos
falando de produção e logística. As decisões sobre concessões impactam
diretamente as regiões atendidas pelos trilhos. É preciso discutir os
investimentos, a manutenção da infraestrutura e a contribuição dessas ferrovias
para o desenvolvimento do Estado”, afirma Messias.
A agenda inclui ainda contratos existentes. Em 2026,
discussões conduzidas pelo Governo Federal e pelo Tribunal de Contas da União
sobre concessões ferroviárias envolveram a Malha Paulista da Rumo, com previsão
de pagamento adicional de R$ 670 milhões, e as concessões da Vale, que
avançaram para a antecipação de R$ 4 bilhões à União.
Também há trechos e áreas ferroviárias sem definição de uso.
Em Marília, uma disputa envolvendo moradores e a Rumo levou a Justiça a
suspender temporariamente uma ação de reintegração de posse e a determinar a
participação do município no processo. O caso reforça a necessidade de discutir
o destino de áreas ferroviárias sem utilização definida e as possibilidades de
aproveitamento desses espaços.
O Sindicato da Sorocabana defende que o planejamento
considere as necessidades dos municípios, a integração do transporte de
passageiros, a conservação da malha de cargas e os impactos regionais dos
investimentos. A entidade também ressalta que sua atuação é independente do
modelo de gestão adotado pelas empresas.
“Nosso compromisso é com os trabalhadores e os usuários,
seja em empresas públicas ou concessionadas. Representamos a categoria e
lutamos pela garantia de direitos, pela valorização profissional e pela
manutenção das conquistas obtidas com muita luta e apoio dos ferroviários”,
destaca Messias.
Para os próximos quatro anos, o Sindicato considera
fundamental combinar planejamento de longo prazo, investimentos e fiscalização
para dar continuidade aos projetos, avaliar alternativas de transporte e
ampliar o aproveitamento da infraestrutura ferroviária paulista, sempre com
respeito aos profissionais do setor.




