Com 4,43 milhões de km² do
país sob algum grau de seca em julho, especialistas apontam que reduzir a
captação de água nova passa por mapear processos, separar correntes e tratar
cada efluente de acordo com o uso pretendido
A seca voltou a avançar no Brasil. A atualização mais
recente do Monitor de Secas, divulgada pela Agência Nacional de Águas e
Saneamento Básico, a ANA, mostra que a área atingida pelo fenômeno passou de
45% para 52% do território nacional entre junho e julho de 2026. Em área
absoluta, o salto foi de 3,79 milhões para 4,43 milhões de quilômetros
quadrados.
O cenário amplia uma discussão que vai além da redução
pontual do consumo: quanto da água utilizada pela indústria poderia retornar ao
próprio processo produtivo? Em 2024, o setor respondeu por 9,9% da retirada de
água destinada a usos consuntivos no país, equivalente a uma vazão estimada de
207,3 metros cúbicos por segundo, segundo dados divulgados pela ANA em agosto
de 2026.
Reúso começa antes da estação de tratamento
Não existe um percentual único de água que possa ser
reaproveitado por uma indústria. O potencial depende do segmento, da
configuração da fábrica, da qualidade da água exigida em cada operação e das
características dos efluentes gerados.
A primeira etapa, portanto, é construir um balanço
hídrico capaz de identificar onde a água entra, quanto é consumida, quais
correntes são descartadas e quais poderiam retornar. A própria ANA destaca que
esse mapeamento permite localizar perdas e oportunidades de redução,
recirculação e reúso dentro das unidades industriais.
“Antes de pensar em simplesmente tratar todo o
efluente para reutilizá-lo, é preciso entender onde existe demanda e qual
qualidade de água aquela aplicação realmente exige. Em alguns pontos, um
tratamento menos complexo pode ser suficiente. Em outros, a presença de sais,
matérias orgânicas ou contaminantes específicos pode exigir uma estratégia
completamente diferente”, afirma João Pedro L. Martini, Diretor de Negócios
de Operações da Conatus.
Qualidade do efluente define até onde a água
pode voltar
Água usada em torres de resfriamento, lavagens,
processos produtivos ou sistemas auxiliares não necessariamente precisa
apresentar os mesmos parâmetros. Por isso, o reúso baseado no conceito de água
adequada ao uso tende a ser mais viável do que tentar produzir uma única
qualidade para toda a fábrica.
Entre os fatores que podem limitar o reaproveitamento
estão turbidez, sólidos suspensos, carga orgânica, óleos, dureza,
condutividade, pH, microrganismos e substâncias características de cada
atividade industrial. A combinação desses parâmetros determina se a corrente
pode ser reutilizada diretamente, se precisa passar por tratamento adicional ou
se o reúso não é indicado naquele ponto.
“Em correntes nas quais a remoção de partículas e a
redução da turbidez fazem parte do tratamento necessário, processos de
coagulação podem entrar nessa estratégia. O policloreto de alumínio, por
exemplo, pode ser aplicado no tratamento de águas e efluentes, mas a escolha do
coagulante e da dosagem precisa partir de ensaios e da caracterização da água,
e não de uma solução padronizada para todos os casos”, explica José Renato
L. Martini, Diretor de Tecnologias e Mercado da Conatus.
Escassez
transforma reúso em questão operacional
A diferença entre setores mostra por que não é possível
estabelecer uma meta universal. Em 2025, uma unidade industrial da RHI
Magnesita, na Bahia, informou índice de 90% de recirculação e reúso. Já a
Frimesa reportou que pouco mais de 10% da água utilizada em suas operações em
2025 veio de reúso. Os dois resultados refletem processos e necessidades
distintas.
A discussão também avança no campo regulatório. Em
setembro de 2026, permanecia ativo no Conselho Nacional do Meio Ambiente o
processo que propõe estabelecer parâmetros mínimos de qualidade para água de
reúso, após uma série de discussões técnicas realizadas ao longo do ano.
Neste contexto, reduzir a dependência de água nova deixa
de ser apenas uma meta ambiental. Em regiões sujeitas a restrições hídricas,
conhecer quanto da água pode circular novamente dentro da fábrica passa a fazer
parte do planejamento de continuidade da operação.



