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Economia Economia

Entregadores trabalham mais de 12h por dia para sustentar família

Sofrendo com desemprego, trabalhadores de aplicativos se expõe a riscos e enfrentam precarização para garantir o sustento

26/03/2021 16h00
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Por: A Redação Fonte: R7 - Sara Santos e Sheila Pinheiro, do R7*
Pedro Luiz de Oliveira da Silva, 18, descansa durante intervalo das entregas, no vão livre do Masp - (Foto: Sheila Pinheiro/ R7 - 22.03.2021)
Pedro Luiz de Oliveira da Silva, 18, descansa durante intervalo das entregas, no vão livre do Masp - (Foto: Sheila Pinheiro/ R7 - 22.03.2021)

Pedro Luiz, de 18 anos, acorda todos os dias cedo, percorre 15,4 quilômetros levando a bicicleta no ônibus ou pedalando do Jardim Miriam, zona sul, até a Bela Vista, na região central de São Paulo, para trabalhar como entregador de aplicativo.

"Não tem horário certo para começar e terminar o trabalho. Chego de manhã, perto das 10h, e vou embora só à noite, em torno das 21h", afirma.

Pedro atende os chamados da Rappi e do iFood. Com o dinheiro que ele ganha com a função, ajuda a sustentar a casa onde mora com a mãe e mais dois irmãos e o financiamento da bicicleta que comprou para o serviço.



"No momento não tá tendo oportunidade de trabalho, então é melhor do que ficar desempregado."

Sem carteira assinada há alguns anos, Pedro pretende estudar para conseguir mudar de profissão, mas diz que ainda não tem nada em mente.

A rotina de Pedro não é um caso isolado, durante a grave crise social desencadeada pela pandemia do novo coronavírus, a taxa de desemprego atinge quase 14 milhões de brasileiros, segundo dados do IBGE.

Nesse meio tempo, o serviço de entregas por aplicativo deixou de ser uma demanda diferencial para se tornar essencial.

Como tantas outras, essa categoria de trabalhadores enfrenta o risco da exposição ao vírus da covid-19, diariamente, em uma cidade onde as extensões de ciclofaixas são insuficientes.

Com pouca remuneração, muitas vezes não conseguem equipamentos de proteção e, para ganhar o equivalente, realizam uma carga horária acima do que é considerado saudável para conseguir fazer valer o serviço.

Trabalhadores de aplicativo durante uma pausa para descanso no metrô Santa Cruz, em São Paulo
Trabalhadores de aplicativo durante uma pausa para descanso no metrô Santa Cruz, em São Paulo - (Foto: Sheila Pinheiro/ R7- 22.03.2021 )

Matheus Henrique Saraiva Rodrigues tem 23 anos. Com uma bike doada por amigos, ele trabalha para a empresa Uber Eats cerca de quatro horas por dia, mas fica online o dia inteiro esperando o celular acioná-lo para a próxima entrega.

“Houve um dia que eu fiquei 24 horas ligado e ele chamou só três vezes. Nos aplicativos por entrega, o valor é meio aleatório, já fiz corrida que pagava R$ 2,50, já fiz corrida que pagava R$ 15... Depende de como o aplicativo opera na hora de gerar o valor. E essa informação, de como é gerado o valor, não fica visível para a gente”, afirma Matheus.

O jovem conta ter escolhido ser entregador por falta de oportunidades. “É muito vendido o discurso sobre a liberdade de poder ser seu próprio patrão, mas no caso das entregas, o meu sentimento real é que falta opção, e não escolha”, lamenta.

De acordo com pesquisa realizada na Universidade Federal da Bahia, os entregadores que têm no aplicativo sua fonte de renda trabalham, em média, 10 horas e 24 minutos por dia, 64,5 horas por semana. Isso significa mais de 20 horas extras em uma jornada regular. Na média, vão para as ruas atrás do sustento seis dias por semana, sendo que 40% deles trabalham todos os dias.

 

O dilema da “Uberização” do trabalho
Entregador na calçada do Shopping Metrô Santa Cruz, descansando enquanto espera app solicitar entrega
Entregador na calçada do Shopping Metrô Santa Cruz, descansando enquanto espera app solicitar entrega - (Foto: Sheila Pinheiro/ R7- 22/03/2021)

 

A advogada Raquel Santana, mestre em Direito, Estado e Constituição, analisa que a chamada “Uberização do Trabalho'' tende a tornar as relações empregatícias cada vez mais informais e precárias.

"Com a uberização, todos os riscos e custos da realização do trabalho são transferidos para os  trabalhadores, que não são reconhecidos como 'empregados'. Logo, eles não têm acesso a direitos trabalhistas básicos, ainda que estejam subordinados às empresas", analisa Raquel.

A especialista menciona, por exemplo, que as decisões judiciais sobre a questão em outros países, como França, Itália e, mais recentemente, o Reino Unido, demonstram a possibilidade de manutenção do funcionamento ordinário dessas empresas. "O que pressupõe, entre outros, a aferição de lucros, com a contratação de trabalhadores que acessem direitos sociais trabalhistas básicos", diz.

O “Breque” dos Apps

No ano passado, entregadores de aplicativos protestaram em diversos Estados do país, reivindicando seus direitos. O movimento ganhou proporção com o agravamento da pandemia de covid-19, pois a taxa de desemprego fez aumentar o número de motoboys e ciclistas na função. Com a alta da demanda pelo serviço, porém, houve desvalorização do trabalhador.

O primeiro "Breque dos Apps" ocorreu no dia 1º de julho de 2020, quando os entregadores se organizaram via WhatsApp.

A paralisação, que causou transtornos ao redor do país, tinha como principal objetivo reivindicar:

- aumento nas taxas de entrega;
- aumento da taxa mínima;
- fim dos bloqueios indevidos;
- seguro para roubos e acidentes;
- licenças pagas para entregadores infectados na pandemia;
- distribuição de EPIs (equipamentos de proteção individual).

Segundo Rafael Felix, organizador do movimento, nos dias 18,19 e 20 de abril deste ano, foi solicitada autorização na Justiça para uma nova paralisação. Desta vez, o movimento daqui quer se univer ao de outros países, como, Chile, Argentina, Colômbia e Portugal. A expectativa é que a mobilização seja maior do que as anteriores. 

Está cada vez pior garantir nossos direitos. Faz mais de 5 anos que não há reajustes na taxa de entregas. E durante a pandemia tivemos mais trabalho e menos renda

Rafael Felix, organizador do movimento

Para a advogada Raquel Santana, do escritório Mauro Menezes & Advogados, movimento  #Brequedosapps de julho de 2020 foi o momento em que os trabalhadores passaram a ser notados. Eles observaram justamente que o valor das taxas diminuiu muito, em decorrência do aumento de trabalhadores cadastrados nas plataformas.

"A pandemia acirrou ainda mais as condições dos trabalhadores vinculados a aplicativos de delivery. Com os breques realizados por eles, observamos a superação de uma dificuldade relacionada à fragmentação (dispersão sem um local de trabalho fixo) dessa categoria", analisa Raquel.

"Eles se organizaram por outras plataformas digitais, como o Whatsapp, e encontraram nas experiências uns dos outros forças para reivindicar melhores condições de trabalho", complementa a advogada.

Proposta de melhoria

O deputado federal Altineu Côrtes (PL-RJ) apresentou um projeto de lei (358/21) que prevê condições mínimas para essa categoria, que mais cresceu na pandemia. De acordo com a proposta, as empresas são obrigadas a garantir pontos de apoio e de descanso; adicional de risco; equipamentos de proteção individual e seguro de vida coletivo. Além disso, o PL prevê cobrança de uma taxa de 30% sobre o valor das entregas, como indenização aos trabalhadores pela exposição a riscos.

“São pessoas que precisam sustentar suas famílias e, por causa da necessidade, acabam aceitando situações mais precárias de trabalho. Por isso, é fundamental dar melhores condições para esses que se tornaram profissionais essenciais na pandemia”, diz Altineu Côrtes.

Outro lado

Em nota, a Uber Eats afirmou que o benefício apontado pelos parceiros entregadores é a flexibilidade. "Desde o início da crise de Covid-19, foram lançadas ações exclusivas para entregadores parceiros, como assistência financeira em caso de necessidade de afastamento, além de gastos com reembolso de máscaras e álcool em gel. Também disponibilizamos Centros de Higienização com tecnologia para higienizar leitos hospitalares, em que os parceiros podem higienizar suas mochilas e retirar kits de higiene. Nossos parceiros passaram a ter a opção de utilizar o serviço de orientação médica online do Hospital Israelita Albert Einstein, chamado de Einstein Conecta e antes disso, já havíamos anunciado outras iniciativas como o Uber PRO, o programa de vantagens da Uber para parceiros."

Também por meio de nota, o iFood afirmou que "os entregadores não são colaboradores do e atuam de forma independente, ou seja, eles gerenciam seu próprio tempo, ficando disponíveis para entregas quando acharem mais conveniente e podendo atuar por outras plataformas e atividades". Sobre o cálculo do valor pago por entrega, a empresa afirma levar em conta fatores como a distância percorrida, o perfil da cidade, o dia da semana, o horário e o modal de entrega (bicicleta, moto etc.). 

A Rappi não se manifestou até o fechamento da reportagem. O espaço está aberto.

Confira na integra as notas das empresas

iFood

O delivery passou a ser considerado um serviço essencial neste momento de distanciamento social. No que se refere às demandas, o iFood busca sempre um equilíbrio entre as três pontas do ecossistema, entregadores, clientes e restaurantes, isso não mudou neste cenário de pandemia.

É importante reforçar que os entregadores não são colaboradores do iFood e atuam de forma independente, ou seja, eles gerenciam seu próprio tempo, ficando disponíveis para entregas quando acharem mais conveniente e podendo atuar por outras plataformas e atividades. O cálculo do valor pago por entrega leva em conta fatores como a distância percorrida, o perfil da cidade, o dia da semana, o horário e o modal de entrega (bicicleta, moto etc.). Há de se considerar também que os entregadores fazem uso da plataforma de maneiras muito diferentes, a depender de como preferem compor sua renda. 

Todos os entregadores ficam sabendo do valor por rota antes de optar por aceitar ou declinar a entrega. Ao analisar os ganhos por hora on-line, isto é, enquanto o entregador está aguardando pedidos e pode também estar logados em outras plataformas, o valor fica entre R$ 8 a R$13. Para fins de comparação, significa o dobro do valor da hora do salário mínimo.

Sobre a proteção aos entregadores, a empresa já distribuiu mais de 3 milhões de itens de proteção, como máscaras e álcool em gel, além do repasse mensal no valor de R$30 para a compra desses materiais para aqueles que não puderem retirar o kit. Além disso, oferece em parceria com a empresa Avus, um plano de vantagens em saúde com consultas e medicamentos com descontos.

É muito importante reforçar que desde o início da pandemia, o iFood já destinou mais de R$ 100 milhões dentre todas as iniciativas de proteção e apoio desenvolvidas para os entregadores parceiros. Foram criados dois fundos  de apoio destinados aos entregadores em quarentena por apresentarem sintomas ou por fazer parte dos grupos de risco. O fundo, que prevê 28 dias de afastamento, corresponde à média de rendimentos do entregador no aplicativo dos últimos 3 meses.

No que se refere à remuneração, os valores das rotas consideram fatores como, por exemplo, a retirada do pedido no restaurante, a distância percorrida, entrega para o cliente, a cidade, o dia da semana e o modal utilizado.

O iFood oferece seguro de acidentes pessoais e de vida para entregadores ativos na plataforma. O seguro de acidentes pessoais contempla a cobertura das rotas de entregas e do retorno do entregador para casa, com limite de até uma hora ou 30 quilômetros depois da última entrega. Para aqueles que usam bicicleta e patinete, o período sobe para duas horas, mantida a distância de 30 quilômetros. O seguro cobre até R$ 15 mil de despesas médicas e odontológicas de emergência, além de indenização em caso de acidentes que levem a invalidez permanente total/parcial e morte acidental.

Uber Eats

O movimento desencadeado pela pandemia ocasionou uma série de mudanças comportamentais em nossa sociedade, principalmente quando se fala em consumo e empreendedorismo, o que contribuiu diretamente para que houvesse um aumento nas demandas pelo aplicativo do Uber Eats.

O delivery tem sido considerado um serviço essencial e por isso permanece ativo em meio às restrições, dada sua importância na estratégia de manter as pessoas em casa. Lembrando que especialmente nessa época de desafios econômicos, o Uber Eats oferece uma alternativa acessível e flexível de geração de renda. A plataforma permanece aberta para receber novos parceiros por acreditar que todas as pessoas aptas devem ter acesso a essa oportunidade.

Hoje, inclusive, o maior benefício apontado pelos parceiros que atuam com a nossa plataforma, é a flexibilidade: não só de decidir onde e quando trabalhar, mas com quem. Eles têm a possibilidade de estar logados, ao mesmo tempo, em diversos aplicativos, e tomar a melhor decisão no momento em que recebe uma chamada.

Destacamos, por fim, que segurança é prioridade para a Uber. A empresa sempre reforça a todos os usuários, entregadores e motoristas parceiros do aplicativo que o Código de Trânsito Brasileiro deve ser respeitado para segurança de todos. A empresa também possui uma parceria com uma consultoria de segurança viária que conta com especialistas de engenharia de tráfego e análise de comportamento para produzir materiais educativos e de prevenção para motociclistas. Além disso, o entregador que utiliza o Uber Eats está coberto por um seguro para acidentes pessoais sem qualquer custo adicional em todas as entregas.

Desde o início da crise de Covid-19, foram lançadas ações exclusivas para entregadores parceiros, como assistência financeira em caso de necessidade de afastamento, além de gastos com reembolso de máscaras e álcool em gel. Também disponibilizamos Centros de Higienização com tecnologia para higienizar leitos hospitalares, em que os parceiros podem higienizar suas mochilas e retirar kits de higiene. Nossos parceiros passaram a ter a opção de utilizar o serviço de orientação médica online do Hospital Israelita Albert Einstein, chamado de Einstein Conecta e antes disso, já havíamos anunciado outras iniciativas como o Uber PRO, o programa de vantagens da Uber para parceiros.

*Estagiária supervisionada por Ulisses de Oliveira da Silva e Márcia Rodrigues

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