Da infância à vida
adulta, o desenvolvimento da inteligência emocional influencia a durabilidade
dos vínculos que construímos
Créditos: Nuthawut Somsuk/iStock
Todos os dias, lidamos com uma
série de emoções que influenciam decisões, conversas e relacionamentos. Algumas
delas são facilmente identificadas. Outras aparecem de forma menos evidente e
podem se manifestar em camadas, misturadas à irritação, à dificuldade de
comunicar necessidades e a conflitos que parecem se repetir. Para lidar com
tudo isso, é preciso desenvolver, aos poucos, o que especialistas chamam de
inteligência emocional.
A discussão ganha ainda mais
relevância em um momento em que a saúde mental se tornou uma preocupação
global. Em 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que os casos de
ansiedade e depressão cresceram mais de 25% em todo o mundo no primeiro ano da
pandemia de Covid-19. O cenário reforça ainda mais a necessidade de ampliar
estratégias de prevenção, autocuidado e desenvolvimento da regulação emocional.
Ainda que os conceitos de
inteligência emocional e saúde mental não sejam a mesma coisa – algo importante
de se destacar –, os dois temas estão conectados. A capacidade de compreender
emoções, reconhecer sinais de alerta, identificar e expressar limites de forma
clara pode contribuir para relações mais saudáveis e para uma melhor adaptação
aos desafios do cotidiano.
O que é inteligência
emocional?
Embora tenha sido mencionado
inicialmente por Wayne Payne em sua tese de doutorado de 1985, a definição de
inteligência emocional foi estruturada cientificamente pelos psicólogos Peter
Salovey e John Mayer em 1990.
Alguns anos depois, ganhou
projeção internacional a partir dos estudos de Daniel Goleman, autor do livro
"Inteligência Emocional", publicado em 1995. Em linhas gerais,
refere-se à capacidade de reconhecer, compreender e gerenciar emoções, tanto as
próprias quanto as de outras pessoas.
Para Goleman, essa habilidade se
apoia em cinco pilares: autoconsciência, autorregulação, automotivação, empatia
e habilidades sociais. O primeiro deles, a autoconsciência, costuma receber
menos atenção do que deveria. Afinal, é ele que permite identificar o que está
sendo sentido antes de decidir como agir.
Essa ideia também dialoga com
conceitos da psicologia analítica. Para o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung,
responsável por desenvolver a teoria do inconsciente coletivo, conteúdos
emocionais que não chegam à consciência continuam influenciando pensamentos,
escolhas e comportamentos. Isso significa que experiências passadas,
inseguranças e medos podem interferir na forma como interpretamos situações
cotidianas, mesmo quando não percebemos sua presença.
O impacto da inteligência
emocional nos relacionamentos
Relacionamentos exigem
convivência, sobretudo com as diferenças. Eles envolvem lidar com frustrações,
respeitar os limites de outras pessoas e, ainda assim, compreender que o outro
possui perspectivas próprias. Por isso, a autorregulação emocional exerce papel
importante na construção de vínculos saudáveis e duradouros.
Pessoas emocionalmente
conscientes tendem a reconhecer gatilhos emocionais com mais facilidade (em si
mesmas e nos outros), responder de forma menos impulsiva diante de conflitos e
compreender experiências para além das suas. Isso não elimina divergências e
confrontos, mas cria condições mais favoráveis para lidar com elas.
Nomear emoções é uma das etapas
centrais desse processo. Quando uma pessoa consegue diferenciar sentimentos
como frustração, vergonha, insegurança ou tristeza, sem se culpar, julgar ou
projetar as próprias emoções, passa a compreender melhor suas origens e
impactos.
Além dos relacionamentos
afetivos, esses benefícios também aparecem em contextos profissionais,
especialmente em atividades que dependem de colaboração. O relatório
"Future of Jobs Report 2025", publicado pelo Fórum Econômico Mundial
(WEF), aponta competências ligadas à inteligência emocional, como resiliência,
autoconsciência, influência social e liderança, entre as habilidades mais
valorizadas para os próximos anos no mercado de trabalho.
Caminhos possíveis para
desenvolver habilidades socioemocionais
Algumas práticas podem contribuir
para o processo de autoconsciência emocional, como observar reações recorrentes
diante de determinadas situações, registrar emoções ao longo da semana
(escrevendo ou realizando alguma prática que demande presença e concentração) e
exercitar a escuta ativa em conversas cotidianas. Também é importante ampliar o
contato com diferentes formas de expressão emocional, seja por meio da leitura,
da arte ou de espaços coletivos de diálogo.
Para quem deseja aprofundar esse
processo, iniciar tratamentos terapêuticos pode ser essencial. Caso consultas
presenciais não sejam possíveis devido à rotina, é possível seguir
acompanhamento com psicólogo online, por exemplo, o que pode
auxiliar na identificação de padrões emocionais.
Uma jornada contínua
Mesmo que as emoções estejam
presentes em todas as experiências humanas, compreender o que sentimos continua
sendo um desafio para muitas pessoas. Em parte, porque esse aprendizado nem
sempre recebe espaço durante a infância e a adolescência, mas também porque
fomos ensinados, em dinâmicas sociais que valorizam produtividade e
performance, a falar sobre resultados e comportamentos com mais frequência do
que sobre sentimentos.
A inteligência emocional propõe
justamente o movimento contrário. Ao desenvolver autoconsciência, ampliamos
nossa capacidade de compreender a nós mesmos e aos outros e, em um cenário
marcado por relações cada vez mais voláteis, aprender a nomear emoções pode ser
um dos caminhos mais importantes para fortalecer conexões humanas e promover
maior saúde emocional.



